Pesquisadores da Embrapa estão estudando o uso da estruvita, fertilizante produzido a partir de resíduos da suinocultura, como alternativa para reduzir a dependência brasileira de fertilizantes fosfatados importados. A tecnologia utiliza nutrientes presentes nos dejetos animais para transformar resíduos agropecuários em insumo agrícola de alto valor agregado.Os estudos conduzidos pela Embrapa Agrobiologia mostram que a estruvita foi capaz de suprir até 50% da demanda de fósforo em lavouras de soja, mantendo produtividade próxima da média nacional registrada em 2025.Além do potencial agrícola, a pesquisa chama atenção pelo aproveitamento de biomassa residual da produção animal. O fertilizante é produzido a partir da precipitação química de nutrientes presentes nos efluentes da suinocultura, transformando resíduos que poderiam causar impactos ambientais em matéria-prima para a agricultura.Segundo o pesquisador Caio de Teves Inácio, coordenador do estudo, a proposta busca criar uma alternativa nacional mais sustentável para o fornecimento de fósforo no campo brasileiro.“Estamos criando uma nova rota tecnológica para o campo brasileiro, alinhada à sustentabilidade, à autonomia e à inovação”, afirma.O pesquisador destaca que a tecnologia segue princípios da economia circular ao reaproveitar resíduos orgânicos gerados pela cadeia pecuária.“Trata-se de um fertilizante que representa o conceito de economia circular aplicado à agropecuária. Transformamos um passivo ambiental, que são os efluentes animais, em um insumo agrícola de alto valor agregado”, explica.Reaproveitamento de resíduos pode reduzir impactos ambientaisA pesquisa aponta que a recuperação de nutrientes presentes nos resíduos da suinocultura pode contribuir para diminuir riscos de contaminação ambiental causados pelo descarte inadequado de dejetos animais.Em regiões de produção intensiva, especialmente no Sul e Centro-Oeste, o excesso de fósforo e nitrogênio no solo representa um dos principais desafios ambientais da atividade. A precipitação da estruvita permite retirar parte desses nutrientes antes da aplicação dos resíduos no solo.Além da redução do impacto ambiental, o reaproveitamento da biomassa residual também pode ampliar a eficiência do uso de nutrientes nas lavouras.Os pesquisadores explicam que a baixa solubilidade da estruvita permite uma liberação lenta e gradual do fósforo, característica considerada vantajosa em solos tropicais brasileiros, que apresentam alta capacidade de fixação do nutriente.Os estudos também avaliam a utilização da estruvita na formulação de fertilizantes organominerais, combinando nutrientes minerais e matéria orgânica para ampliar a difusão de fósforo no solo.Dependência de fertilizantes importados preocupa setorAtualmente, cerca de 75% dos fertilizantes fosfatados utilizados no Brasil são importados. A dependência externa é vista como uma fragilidade estratégica para a agricultura brasileira, especialmente diante das oscilações internacionais de preços e da concentração global da produção de fósforo.Para os pesquisadores, o aproveitamento de resíduos agropecuários pode ajudar a ampliar a autonomia nacional na produção de insumos agrícolas.“Estamos falando de uma tecnologia nacional, que reduz a dependência de insumos importados, reaproveita os nutrientes de resíduos agropecuários e melhora a eficiência do uso do fósforo, um recurso natural não renovável”, reforça Inácio.Estimativas da Embrapa indicam que propriedades com mais de 5 mil suínos poderiam gerar cerca de 340 mil toneladas de estruvita por ano no Brasil.Apesar de já ser utilizada em outros países, a estruvita ainda possui poucos estudos voltados às condições dos solos tropicais brasileiros. Segundo os pesquisadores, ampliar esse conhecimento é fundamental para viabilizar a adoção da tecnologia em larga escala no País.“É um paradoxo: temos um recurso promissor, mas pouco se sabe sobre seu comportamento nas nossas condições de solo, que são predominantemente ácidas e com alta capacidade de absorção de fósforo”, destaca Inácio.__________________________________________
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